A minha cápsula do tempo em 2019: Sobre quando cursei economia na UFPA
Dando continuidade à série A minha cápsula do tempo, eu tomo a liberdade de compartilhar com o leitor amigo a reprodução de alguns textos que eu precisei desenvolver para a disciplina de Introdução à teoria econômica, em 2019, quando eu cursava economia na Universidade Federal do Pará (UFPA).
— Sim, meus caros. Eu cheguei a cursar menos de um semestre de economia durante o ano de 2019. Tudo isso enquanto eu fazia o último ano do curso básico de violão clássico, no conservatório Carlos Gomes, aqui em Belém, e de tarde eu trabalhava na minha tese de doutorado em Geofísica, na pós-graduação em geofísica da UFPA.
Eu passava o dia inteiro fora de casa, e cursava economia no período da noite. Era uma rotina extremamente exaustiva e, em pouco tempo, eu adoeci e desisti do curso. — Eu cheguei a assinar o protocolo de desistência do curso ardendo em febre e tossindo muito, para vocês terem uma idéia!
Mesmo assim, alguma coisa restou desta insensata aventura — As resenhas críticas sobre alguns capítulos do livro Economia modo de usar de Ha-Joon Chang e uma paixão por entender, mesmo de orelhada, temas relacionados à economia. E restou também a compreensão de como entender o básico da ciência econômica pode mudar as nossas vidas e ajudar nas nossas decisões, sobretudo em relação à política...
Além de compartilhar com vocês os textos que eu produzi durante a minha rápida estadia no curso de economia da UFPA, eu também quero compartilhar os motivos que me levaram a tentar mudar de carreira de forma tão abrupta: A descrença em relação à minha profissão de geofísico e como isto se relacionou à crise política do Brasil de 2016, a sensação de fracasso e desesperança da minha geração, a geração millennial, e as minhas impressões para o futuro da minha carreira e da minha vida depois de todas estas frustações.
Eu sei que muitos de vocês, que assim como eu nasceram nos anos 1990-1999, que se encheram de esperança com a passagem para o "novo milênio", compartilham deste sentimento de frustação: De que as esperanças da nossa geração se esvaíram no começo dos anos 2000. — E agora oque faremos como adultos nos anos 2020? Como uma geração de loosers que ainda mora na casa dos pais e não tem perspectiva de um emprego com carteira assinada.
O meu objetivo é que com essa viagem ao passado nós possamos extrair algum conhecimento útil da compreensão do que nos levou até aqui. E assim, nós talvez possamos construir um novo futuro, ainda que incerto, na vida adulta.
Apresento, como sempre, a versão original dos textos para a consulta do leitor mais atento: Resenha crítica dos primeiros capítulos de Economia Modo de Usar de Ha-Joon Chang
A seguir, eu apresento as resenhas críticas que desenvolvi:
- A fantástica fábrica de economistas: Uma discussão sobre o objeto de estudo da economia
- O quebra-cabeças de um bilhão de peças: Hayek e a teoria do mercado como ordem espontânea
- Chutando a escada - Uma história econômica não convencional: A importância do estudo da história econômica
- Escatologia X Ingenuidade: Há mais de uma maneira de "fazer" economia: Reflexões sobre "o fim da história" na economia
- Valor-trabalho: O campo de batalha dos herdeiros da teoria clássica: Reflexões sobre a teoria clássica, marxista e neoclássica do valor
- O caminho da servidão não é tão ruim: O debate econômico entre Keynes e Hayek
- O agente econômico não é autônomo nem moral: Reflexões sobre a racionalidade e a moralidade do agente econômico
E agora vamos falar um pouco sobre como chegamos até aqui...
O fracasso da minha geração e porque cursei geofísica em 2009 na UFPA
O pré-sal foi descoberto em 2006. No auge do primeiro mandato do presidente Lula. O país estava inundado de um sentimento de esperança em relação ao futuro, um futuro que parecia ser logo alí. Este sentimento se mesclava com o bom momento econômico que o país passava, havia a nível global o crescimento da demanda mundial por commodities, dentre elas o petróleo. Este período ficou conhecido como o boom das commodities, que ocorreu no início do século XXI, aproximadamente entre 2000 e 2014.
Neste ínterim, em 2008, surgiu o curso de graduação em geofísica da Universidade Federal do Pará (UFPA), muito embora o curso de pós-graduação em geofísica já existisse desde 1972. O curso foi criado para atender a demanda crescente por profissionais para trabalhar na prospecção de hidrocarbonetos e de demais recursos minerais que “o país do futuro” necessitava para o seu desenvolvimento.
E sob os auspícios do governo do Partido dos Trabalhadores (PT), o pré-sal seria a nossa esperança de resolução da “questão social” que abalava o Brasil à época: um país extremamente desigual, mas que havia encontrado um tesouro no final do arco-íris. E este geraria rendimentos suficientes para sustentar os investimentos em educação e saúde, tal como a Noruega havia feito décadas atrás, através do seu fundo soberano, criado em 1996 para investir os recursos da indústria de petróleo e gás e controlado pelo banco central do país.
Em 2009, eu era só um moleque magrelo estudando para o vestibular. Eu tive a sorte de passar para a turma especial do colégio, a turma mérito, e em pouco tempo eu me tornei o melhor aluno desta turma. E, apesar de ser quase um protótipo de Quasímodo, eu encontrei o meu primeiro amor em uma das colegas da turma especial. — O futuro parecia promissor para mim e para o país…
Um dia, em uma das aulas do convênio, — nós fazíamos o convênio pela manhã e a turma especial de tarde até o começo da noite — eu ouvi o discurso de um professor sobre uma profissão pouco conhecida, mas que estava pagando bons salários iniciais e muito acima da média do mercado, a geofísica.
Esta profissão era diretamente ligada à prospecção do petróleo, e permitiria ao geofísico trabalhar encontrando o “ouro negro”, o recurso valioso que resolveria tanto o problema energético do país quanto o problema político. — E meus olhos brilharam ainda mais quando eu ouvi o professor falando sobre salário: 25mil reais por mês, trabalhando embarcado em um esquema de 14 dias no mar por 20 dias em terra. Eu caí como um patinho!
Movido por este discurso, um dos meus colegas da turma começou a pesquisar mais sobre o curso de geofísica. Este sempre me falava das vantagens da profissão de geofísico durante o intervalo das aulas: estabilidade, treinamento, altos salários, etc. Ironicamente, na hora de escolher o curso no vestibular da UFPA, eu fui convencido e escolhi geofísica e ele licenciatura em física.
— Eu lembro exatamente do momento em que escolhi fazer geofísica na UFPA. Em casa, havia um volume da antiga enciclopédia Barsa, que durante a minha infância era vendida de porta em porta, e a minha mãe havia adquirido um volume, mesmo nunca tendo condição de terminar de pagá-lo. Um dos livros do conjunto era sobre orientação vocacional e apresentava, genericamente, várias profissões e os conteúdos programáticos dos cursos para estas profissões.
— Em uma das páginas, eu encontrei as orientações sobre o curso de Geologia e, logo na página ao lado, as orientações sobre o curso de Geofísica. Vale mencionar que a irmã da minha namorada na época sempre me falava sobre o curso de geologia. Ao que eu retrucava como um papagaio as vantagens da profissão de geofísico, estas que eu havia absorvido dos intermináveis discursos do meu colega de convênio que terminou cursando licenciatura em física.
Alí, entre as duas páginas do livro de orientação vocacional, o meu destino foi traçado por uma única escolha entre geologia e geofísica. A expectativa por um salário de 25.000 reais e uma vida de viagens pesou muito mais na minha escolha. — Talvez, se eu pudesse ter previsto o futuro da minha ex-cunhada como geóloga, eu teria escolhido com mais sabedoria, ao menos não teria feito tão pouco da escolha dela.
Enfim, escolhido o curso, eu passei o ano de 2009 estudando bastante. Às vezes, eu dispendia noites em claro estudando, pois a nota de corte para o curso de geofísica era relativamente alta, comparada aos cursos da área de geociências, como oceanografia e meteorologia. Ainda assim, eu consegui a façanha de passar como primeiro colocado do processo seletivo. — Eu ganhei um pedaço de papel escrito parabéns da coordenadora do curso.
Foi então que durante a graduação, a minha esperança de futuro, minha e da minha geração, se tornou frustração em relação ao que nós poderíamos ter sido. Acho que nenhuma imagem traduz melhor esse sentimento do que a comparação entre as famosas capas da revista de The Economist — E eu tomo a liberdade de reproduzí-las abaixo.
— Daí surge a questão que ilustra de maneira ímpar a minha frustração à época e que eu me esforçarei por responder na seção seguinte:
Onde foi que o Brasil fracassou? Onde foi que eu fracassei?
No vídeo a seguir, a economista Laura Carvalho, autora de A Valsa Brasileira, um dos melhores livros sobre os 13 anos de governo PT e sobre a discussão do que deu errado na época do Milagrinho. — Como a Laura Carvalho chama o período de crescimento econômico dos dois governos Lula (2003-2011), seguido da crise econômica nos mandatos seguintes do governo Dilma (2011-2016). Uma clara referência ao Milagre Econômico dos governos militares da época da ditadura (1964-1985).
Um quadro assustador: Oque aconteceu com os meus colegas da turma de geofísica de 2010 da UFPA?
Tudo se torna ainda mais assustador e decepcionante, caro leitor, quando eu apresento oque aconteceu com os meus colegas de turma. Especificamente, quais as carreiras profissionais que estes seguiram, veja só:
ANDERSON JOSE MARQUES DIAS - Soldado do exército
ANDERSON MANOEL CLEMENTE DE SOUSA - Farmacéutico concursado da SESPA
ANGELA DA SILVEIRA MONTALVAO - Trabalha no instituto Qualificar Profissionalizante (cargo não especificado)
CARLOS EDUARDO AMANAJAS SOARES - Está fazendo pós graduação em Geofísica na UFPA
DHEYMISON ALVES MOREIRA - Virou microempresário
DIEGO ROGERIO DA CONCEICAO PEREIRA - Não sei
DIOGO ESTEVAO FARIAS COSTA - Abandonou o curso no começo
ERLANE PEREIRA DOS SANTOS - Graduação em jornalismo
GLESSIANE DOS SANTOS VASCONCELOS - Virou revendedora AVON
HUGO SANTOS DE SOUZA - Está fazendo pós graduação em Geofísica na UFPA
IVERSON RAIMUNDO ANGELIM LIMA - Está fazendo pós graduação em Geofísica
JEFERSON AFONSO EVANGELISTA SANTOS - Virou Policial Militar
JESSICA PENA HENRIQUES - Não sei
JOAO PAULO ALVES DA SILVA - Graduação em economia
LEONARDO DOS REIS OLIVEIRA - Concursado do IBGE
MICHAEL DE ALMEIDA ALVES - Concursado da COSANPA
NATIE ALMEIDA ALBANO - Está fazendo pós graduação em Geofísica na UFPA
RODOLFO ANDRE CARDOSO NEVES - Frontend developer na Invision e está fazendo pós graduação em Geofísica na UFPA
VICTOR BARROS PEDREIRA FERREIRA - Virou designer
VITOR HUGO MAGALHAES DE ALFAIA - Vendedor de curso de inglês
Ou seja, nenhum dos meus colegas de turma, até onde eu sei, conseguiu construir uma carreira duradoura em Geofísica na iniciativa privada. Muitos deles, assim como eu, seguiram a carreira acadêmica fazendo mestrado e doutorado na UFPA mesmo. E este foi o mais próximo que nós chegamos de "trabalhar com geofísica". Mesmo que alguns deles tenham trabalhado na área temporariamente, como eu ouvi falar, não conseguiram permanecer na profissão.
Um vislumbre do paraíso: O final do ano de 2014
Diferentemente dos meus desafortunados colegas de curso, eu ainda senti o gosto de trabalhar como geofísico no final do ano de 2014. Este era o ano em que eu deveria estar preocupado com o trabalho de conclusão de curso (TCC) e preparando os detalhes da minha formatura. Eu acabei deixando tudo isso de lado quando, por sorte, consegui uma vaga de emprego temporária para um levantamento gravimétrico para a empresa GPR-Geofísica.
O destino me sorriu após o envio de dezenas de emails com o meu currículo anexado e um pedido desesperado por uma oportunidade para adquirir experiência. E, após meses de silêncio por parte das empresas e de algumas respostas grosseiras, eu recebi um email de um dos sócios da GPR-Geofísica me perguntando sobre a minha experiência com gravimetria — Um tipo de levantamento geofísico onde são medidas micro variações no campo gravitacional do local, estas variações podem estar relacionadas a presença de corpos minerais em subsuperfície, ou no caso do levantamento que eu iria realizar, relacionadas a presença de cavernas e aquíferos.
Eu fui escolhido, pois tinha tido experiência em um estágio não remunerado de algumas semanas, um levantamento gravimétrico ao longo do Rio Araguarí, no Amapá. Este tinha o objetivo de delimitar o relevo do embasamento rochoso ao longo do rio. A empresa então me escolheu para a vaga, depois que eu mandei um email detalhando a minha experiência prévia com gravimetria.
O levantamento para o qual eu fui contratado era para delimitação de possíveis aquíferos e cavernas para a Agência Nacional de Águas (ANA) em algumas cidades do estado da Bahia e de Minas Gerais. A GPR-Geofísica foi subcontratada e ficou responsável pela execução do levantamento e processamento dos dados, e eu virei um terceirizado temporário da empresa, pelo regime CLT.
Eu cheguei a viajar pelo interior da Bahia e de Minas Gerais, e senti o gosto daquilo que me fez escolher Geofísica no final das contas: um bom salário (3800R$ líquidos no regime CLT) e poder viajar pelo mundo (pelo interior do Brasil, no caso). Eu fiz todo o levantamento gravimétrico, eu e mais um motorista contratado para me auxiliar no trabalho. E foi assim que eu trabalhei nos últimos meses de 2014 e consegui juntar algum dinheiro. — Oque era muito para um estudante acostumado com uma bolsa de 360R$ mensais do grupo PET da Geofísica da UFPA (PET é o acrônimo para Programa de Educação Tutorial).
Legenda: Eu, no final de 2014, saindo às 4 horas da manhã para pegar um vôo para São Paulo e iniciar o meu trabalho como geofísico Trainee na GPR-Geofísica.
Legenda: Trabalhando como geofísico Trainee no levantamento gravimétrico para a GPR-Geofísica, final do ano de 2014.
Os meus contratantes, depois do levantamento concluído, me mandaram de volta para Belém sem nenhuma perspectiva de contratação definitiva. — Até hoje, esta é a única assinatura na minha carteira de trabalho. — E foi assim que eu cheguei ao final do curso em 2015, e me formei com uns seis meses de atraso.
Neste ínterim, a minha única esperança e a de muitos dos meus colegas desempregados passou a ser o mestrado em Geofísica da UFPA. Isso se deu muito mais por necessidade financeira do que por vocação para a carreira acadêmica. Estudando para a prova da seleção do mestrado, nós ainda nos lembrávamos da época de ouro da geofísica, quando ainda existia a esperança de sermos contratados e contruir as nossas carreiras promissoras na profissão do futuro!
Lembrando desta época, eu sempre gosto de mencionar a história de um colega de curso que falava muito bem o inglês. Ele não era um aluno brilhante, mas dominava o idioma. Um dia, nós tivemos uma palestra de um representante da Schlumberger, a maior empresa prestadora de serviços de petróleo do mundo (Como eles se identificam). Ele estava alí para coletar os currículos dos alunos que estavam nos semestres finais do curso de Geofísica para um processo de seleção da empresa.
Este meu amigo, mesmo não podendo participar da seleção, pois nós ainda estávamos nos semestres iniciais, recebeu um cartão de visita das mãos do representante da empresa que disse para ele contactá-lo assim que estivesse finalizando o curso! — Isso mesmo, caro leitor, bastava saber inglês para ser contratado como geofísico, mesmo sem ter terminado a graduação! As empresas se encarregavam do treinamento dos novos profissionais do petróleo.
Todavia, depois da maldição de Ozymandias ter caído sobre nós, caro leitor, boa parte dos meus colegas resolveu abandonar a carreira de geofísico e tentar outra graduação ou seguir a carreira acadêmica. Muitos dos que optaram pela última alternativa, assim como eu, estavam mais interessados nas bolsas de pesquisa de mestrado, oque garantiria um bom sustento por dois anos ao menos. — O meu amigo do parágrafo anterior, por exemplo, não terminou o curso, virou professor de inglês.
Além disso, o mestrado prometia melhorar o currículo para os futuros processos seletivos das empresas, que supomos se seguiriam assim que o mercado de petróleo no Brasil voltasse, se recuperando do recente crash. — Doce ilusão! Eu terminei o mestrado em 2017 e o mercado para a área de geofísica estava tão parado quanto em 2015-2016, o período do auge da operação lava-a-jato e da derrocada do Partido dos Trabalhadores (PT), do governo Dilma, da Petrobrás e da Geofísica!
A operação Lava Jato
Um estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), encomendado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), aponta o impacto da operação Lava Jato para a economia brasileira: R$ 172,2 bilhões deixaram de ser investidos no país de 2014 e 2017. Justamente no período que eu estava finalizando o meu mestrado em geofísica na UFPA a operação acabou com as minhas esperanças de uma melhora no mercado do petróleo. A imagem a seguir, retirada do estudo citado, demonstra o impacto da operação nos investimentos totais da Petrobrás:
Os principais dados do estudo revelam o impacto da operação nos setores envolvidos diretamente com petróleo e gás e inderetamente em outros setores (grifo meu):
- A Lava Jato custou 4,4 milhão de empregos e 3,6% do PIB;
- Deixou de arrecadar R$ 47,4 bilhões de impostos e R$ 20,3 bilhões em contribuições sobre a folha, além de ter reduzido a massa salarial do país em R$ 85,8 bilhões;
- Afetou os setores envolvidos diretamente (petróleo e gás e construção civil), mas também uma gama importante de outros segmentos (devido aos impactos indiretos e ao efeito renda);
- A operação teve impacto político e também no desenvolvimento de setores econômicos estratégicos para o país
Ou seja, no momento em que eu estava finalizando o meu mestrado, o mercado de petróleo no Brasil sofreu um choque profundo e os investimentos reduziram drasticamente. E como consequência, entre 1º de janeiro de 2014 e 31 de dezembro de 2015, as ações preferenciais da Petrobras perderam 57% do seu valor.
Infelizmente, o impacto econômico da operação Lava Jato, aos poucos, foi se transformando em uma crise política de grandes proporções que poria um fim prematuro ao segundo governo Dilma no ano de 2016. Foi então que eu decidi partir para o doutorado em geofísica na UFPA. Muito mais pela necessidade de ter alguma renda nos anos de turbulência política que se seguiriam do que por vocação para a carreira acadêmica.
O impeachment da presidente Dilma em 2015-2016
“Em uma festa no palácio dos bandeirantes, um político pergunta a um empresário — Nossa! Você por aqui! — E o empresário responde — Eu estou sempre aqui. Vocês que mudam a cada 4 anos.” (Adaptado do documentário de Petra Costa, Democracia em vertigem, 2019)
A origem da turbulência política que irá desaguar no processo de impeachment da presidente Dilma Roussef em 2015-2016 remonta aos protestos de 2013. Estes protestos começaram como manifestações contra o aumento de 20 centavos nas tarifas de ônibus, metrô e trens em São Paulo e, aos poucos, foram apropriados por setores liberais da direita política brasileira.
As pautas dos protestos foram ficando cada vez mais difusas e se distanciando da pauta original, revelando a latente insatisfação da população brasileira com a classe política, com os escândalos de corrupção e os resultados econômicos entregues pelo primeiro mandato do governo da presidente Dilma.
A presidente ainda cometeria vários erros de estratégia política, pois o ano de 2013 também ficou conhecido como o ano da institucionalização da delação premiada. — Com grande ironia, o destino teria delegado à Dilma o papel de alimentar a serpente que iria ser a grande responsável pela sua queda. — A operação Lava-Jato fez largo uso da delação premiada a partir do ano de 2014 para prender várias figuras associadas ao Partito dos Trabalhadores (PT).
Mesmo com toda esta instabilidade política, a presidente Dilma foi reeleita para um segundo mandato em 2014 por uma margem de votação apertada. Vale mencionar que o candidato derrotado na eleição para presidente, Aécio Neves (PSDB), plantou a semente do que seria a cultura da desconfiança em relação ao sistema de votação brasileiro e as urnas eletrônicas.
Aécio Neves e o PSDB contestaram o resultado das eleições de 2014. Foi feita uma auditoria das urnas, por auditores independentes contratados pelo partido, nenhuma prova de fraude ou irregularidade nas eleições foi encontrada. Porém, o presidente Jair Bolsonaro usaria o fato para lançar suspeita sobre as urnas eletrônicas, afirmando possuir provas de que as eleições de 2014 e de 2018, na qual ele foi eleito presidente da república, teriam sido fraudadas. — O ovo de basilisco foi chocado em 2014, pela direita brasileira, e a extrema-direita faria amplo uso deste “monstro” a partir de 2018.
O segundo mandato da presidente Dilma seguiu com uma grave recessão econômica, ampliada pela adoção de uma política de austeridade fiscal e pela queda nos preços das commodities. O governo ainda sofreria com os efeitos políticos e econômicos gerados pela operação Lava-Jato.
O efeito econômico deixado pela operação não foi tão percebido pela população brasileira quanto o efeito político. Este último foi percebido logo de imediato. A insatistfação com o PT e a associação do partido com os escândalos de corrupção tomaram conta da opinião pública em geral, isto gerou uma crise de popularidade no governo Dilma, sem apoio popular e com a economia em frangalhos a sua queda era questão de tempo.
Os conflitos com o congresso foram se acentuando. O líder da câmara na época era o Eduardo Cunha (PMDB), e este estava sendo investigado pela operação Lava-Jato. Os deputados do PT decidiram votar contra ele no Conselho de Ética da câmara dos deputados. Cunha, em retaliação, abre o processo de impeachment da então presidente Dilma Roussef, em 02 de Dezembro de 2015.
O pedido de impeachment, protocolado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, estava baseado na acusação de que a presidente Dilma havia atentado contra a Lei de responsabilidade Fiscal (LRF) através de pedaladas fiscais, uma espécie de manobra contábil que serviu para passar a impressão de que o governo arrecadava mais do que gastava.
O governo, supostamente, não estava pagando os bancos públicos e privados que financiavam programas sociais, como o Bolsa Família, por exemplo. Assim, os bancos passaram a arcar com estas despesas, sem receber a compensação do governo. O Tribunal de Contas da União (TCU) considerou essa uma operação de empréstimo dos bancos ao governo, com intenção de aliviar a situação fiscal das contas públicas do governo federal, portanto uma “pedalada fiscal”.
Tchau, querida!
Um dos episódios icônicos da política brasileira foi o “Tchau, querida!”, a frase dita em um grampo vazado pelo então juíz Sérgio moro de uma conversa entre o ex presidente Lula e a então presidente Dilma. No áudio, Dilma e Lula estavam combinando os detalhes da nomeação de Lula para o ministério da Casa Civíl, e o termo de posse seria entregue por um funcionário do palácio chamado de Jorge Rodrigo Messias, a quem Dilma chama de “Bessias” (Dilma trocou o “M” pelo “B” no nome do funcionário).
O incidente foi visto com grande desconfiança pela opinião pública e pela mídia. Dilma foi acusada de estar tentando proteger o ex-presidente Lula, garantindo-lhe o foro privilegiado. A suspeita doi acentuada pelo seguinte trecho do áudio (grifo meu):
“Eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel, pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?” (Dilma dizia a Lula na gravação)
A conversa foi exibida durante o Jornal Nacional, e a despedida de Lula antes de desligar o telefone, o “Tchau, querida!”, seria utilizado pela oposição durante a votação do processo de impeachment da presidente Dilma Roussef na câmara dos deputados, iniciado em 17 de abril de 2016. O episódio terminou com Lula tomando posse no dia 17 de março de 2016. Mas a posse foi logo suspensa, já no dia 18 de março de 2016, pelo ministro do STF Gilmar Mendes.
— E quanto a mim? — Eu estava no meio do meu mestrado em geofísica na UFPA, e já começava a dar os meus primeiros passos como defensor ferrenho de uma agenda liberal nas minhas redes sociais. A seguir, uma publicação minha no Facebook, em Dezembro de 2016, comemorando a aprovação da PEC241/55, a "PEC do teto de gastos", que congelaria as despesas e investimentos do governo federal por 20 anos:
Também aproveito para registrar esta postagem em que eu "me sinto um banqueiro" por ter recebido alguns reais de rendimentos de títulos da dívida pública do governo federal:
O “Grande acordo nacional”
Sérgio Machado: Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel. Num grande acordo nacional.
Romero Jucá: Com o supremo, com tudo.
Poucos dias depois da câmara aprovar a abertura de um processo de impeachment uma outra conversa se tornou pública, o diálogo entre o senador Romero Jucá (PMDB) e o empresário Sérgio Machado. Na conversa, os dois combinavam “um grande acordo nacional” para frear as investigações da operação Lava-Jato, o impeachment da presidente Dilma seria “a solução mais fácil”.
Para além destas suspeitas de conspiração lançadas por este áudio, Temer assumiu o governo em 12 de maio de 2016 sem mais problemas, após o processo de impeachment de Dilma. E em 02 de agosto de 2017 o congresso decidiu não investigá-lo por corrupção passiva.
A partir destes fatos, se torna bastante difícil defender que o sistema político brasileiro tratou com isonomia a presidente Dilma e o então vice presidente Michel Temer. O julgamento do impeachment de Dilma parece muito mais com uma manobra política bem elaborada do que propriamente um ato de justiça. — Ela foi julgada por corruptos e substiuída por um investigado por corrupção.
— Ou seja, para mim ficou claro que as aspirações originais da classe média, que protestava contra os escândalos de corrupção envolvendo o PT e o governo federal, foram manobradas politicamente para atender aos objetivos políticos das elites. Estas elites que irão se beneficiar da agenda econômica adotada pelo governo Michel Temer, no final de 2016, e depois serão ampliadas pelo governo Bolsonaro, a partir de 2018: Uma ampla política de austeridade fiscal e redução dos investimentos públicos institucionalizada a partir da aprovação da PEC55, o famoso “teto de gastos”.
Um breve resumo de 2017: A finalização do meu mestrado em geofísica
No ano de 2017, o meu Facebook estava recheado de postagens sobre investimentos em ações, títulos do tesouro e criptomoedas. Eu dava “dicas” de investimentos para os meus colegas da pós-graduação tendo acumulado alguma reserva das bolsas de mestrado que eu recebia do governo. Essa pretensa vida de “investidor da bolsa” escondia a triste realidade: Eu ainda morava na casa dos meus pais, não tinha nenhuma perspectiva de emprego na área da Geofísica e acumulava dívidas da ordem de 10mil R$ com operações de Day Trade no mercado de ações.
Boa parte destas minhas postagens era contra o governo Dilma e contra a esquerda Petista. Eu incorporei o ressentimento da classe média da época que via a economia naufragar e precisava encontrar algum culpado para descarregar o seu sofrimento. Sem saber, nós estávamos alimentando a “cadela do fascismo”, que entraria no cio nos próximos anos e nos morderia a cara…
Eu, assim como muitas pessoas, fui influenciado pela ascenção da extrema direita nas mídias sociais. Rapidamente, os canais de influenciadores de direita, como Nando Moura, o Movimento Brasil Livre (MBL), entre outros, começaram a ganhar relevância nas redes e principalmente no YouTube. Misturando esta influência dos liberais e extremistas com oque eu estava aprendendo sobre investimentos, eu cheguei até a me declarar um liberal-conservador. Um exemplo do conteúdo das minhas redes sociais na época a seguir:
Em 03 de julho de 2017 eu terminei o meu mestrado, recebendo o diploma em outubro daquele mesmo ano. Eu estava oficialmente desempregado, assim como vários dos meus colegas mestres em geofísica. Foi então que eu decidi ir para o doutorado.
Como a matrícula do doutorado é por "fluxo contínuo", eu poderia entrar a qualquer momento que eu quisesse antes do próximo edital de seleção para a pós-graduação ser publicado, eu decidi retirar um "semestre sabático".
Basicamente, já que eu era sustentado pela minha mãe nas contas mais básicas, eu resolvi utilizar o pouco da reserva que ainda me restava e que eu não havia desperdiçado no Day Trade para aproveitar um semestre de férias: Eu aproveitei para malhar, fazer dança de salão na escola de dança Cabanos e para continuar perdendo o meu tempo postando conteúdos de direita no meu Facebook.











Comentários
Postar um comentário