Valor-trabalho: O campo de batalha dos herdeiros da teoria clássica
Resenha crítica do capítulo 5 de Economia modo de usar: Reflexões sobre a teoria clássica, marxista e neoclássica do valor
As escolas Neoclássica e Marxista são as herdeiras da escola Clássica. Todavia, isto não faz estas escolas convergirem com a escola clássica em todas as suas interpretações, sobretudo nas suas teorias do valor. Enquanto a abordagem de Adam Smith levava em conta que a riqueza produzida na sociedade é fruto da produção, abordagem levada as últimas consequências pela teoria Marxista, os neoclássicos, a partir das proposições de Marshall, irão focar no consumo como elemento principal da geração da riqueza, ao menos no curto prazo (CHANG, 2014):
"Ela [escola neoclássica] enfatizava o papel das condições da demanda (derivada da avaliação subjetiva dos produtos feita pelos consumidores) ao definir o valor de um bem. Os economistas clássicos acreditavam que o valor de um produto é determinado pelas condições de oferta, ou seja, os custos da sua produção. Eles mediam os custos segundo o tempo de trabalho despendido na produção — isso é conhecido como teoria do valor-trabalho. Os economistas neoclássicos enfatizavam que o valor (chamado por eles de preço) de um produto depende também do quanto o produto é valorizado pelos potenciais consumidores; o fato de algo ser difícil de produzir não significa que seja mais valioso. Marshall refinou essa ideia argumentando que as condições da demanda são mais importantes na fixação dos preços no curto prazo, quando a oferta não pode ser alterada, enquanto as condiçõesde oferta importam a longo prazo, quando investimentos (ou desinvestimentos) podem ser feitos nas fábricas para produzir mais (ou menos) produtos conforme são mais (ou menos) procurados."
O elemento formador de valor nas escolas Clássica e Marxista é o trabalho. Daí as teorias da alienação do trabalho e da mais-valia surgem como mera consequência: Marx produz uma análise elegante do sistema Capitalista tomando por base as teorias clássicas de valor. Ou seja, a análise Marxista surge como consequência direta das interpretações de valor da teoria clássica. Pois, se o valor é gerado pelo trabalho, através da produção de bens, e só há uma classe que trabalha (os proletários), uma parte do valor social gerado é apropriada pelos donos dos meios de produção (os burgueses). Marx define esta apropriação como Mais-valia.
Além disso, os trabalhadores não reconhecem a sua condição de exploração por estarem envoltos em uma atmosfera de estranhamento em relação àquilo que produzem (Alienação). Estes trabalhadores são peças acessórias e substituíveis no processo produtivo. Estão condenados a uma única tarefa simples e repetitiva até que sejam trocados por uma máquina capaz de produzir muito mais em menos tempo (CHANG, 2014):
"Como já mencionei, a escola marxista herdou muitos elementos da escola clássica. De diversas maneiras ela é mais fiel à doutrina clássica do que a autoproclamada sucessora desta, a escola neoclássica. A escola marxista adotou a teoria do valor-trabalho, que foi explicitamente rejeitada pela escola neoclássica. Ela também se concentrou na produção, enquanto o consumo e a troca eram os aspectos principais para a escola neoclássica. Ela via uma economia composta de classes, em vez de indivíduos — outra ideia-chave da escola clássica rejeitada pela neoclássica. Desenvolvendo a escola clássica, Marx e seus seguidores apresentaram um tipo de teoria econômica muito diferente da oferecida pela sua meio- irmã, a escola neoclássica."
Assim, Marx delimita uma base material para o motor da história, a luta de classes. Este autor deixa bem clara a influência da escola clássica de economia sobre o seu pensamento. Pois, se a produção é o centro da economia, também é determinante para a construção do tecido social, haja vista que a produção de bens é inerente à condição humana. Ou seja, somos homo faber, seres que produzem o seu sustento e modificam a natureza através do trabalho, ao produzirmos e também distribuírmos bens de determinado modo, arranjamos este processo em um modo de produção que é regido por relações sociais (CHANG, 2014):
"A produção no centro da economia Levando a visão da escola clássica mais longe, a escola marxista defendia que “a produção é [...] a base da ordem social”, nas palavras de Engels. Vê- se cada sociedade como sendo construída sobre uma base econômica, ou modo de produção. Essa base é constituída pelas forças de produção (tecnologias, máquinas, habilidades humanas) e pelas relações de produção (direitos de propriedade, relações de emprego, divisão do trabalho). Sobre essa base está a superestrutura, que compreende a cultura, a política e outros aspectos da vida humana, que, por sua vez, afetam a maneira como a economia é posta em prática. Nesse sentido, Marx foi, provavelmente, o primeiro economista a explorar sistematicamente o papel das instituições na economia, pressagiando a escola institucionalista. Ao elaborar mais a teoria dos “estágios de desenvolvimento” de Adam Smith, a escola marxista via as sociedades evoluindo através de uma série de etapas históricas, definidas segundo seu modo de produção: o comunismo primitivo (sociedades “tribais”); o modo de produção antigo (baseado na escravidão, como na Grécia e em Roma); o feudalismo (baseado na dominação de semiescravos ou servos, ligados à terra, por senhores feudais); capitalismo; e comunismo. O capitalismo é visto como nada mais que uma fase do desenvolvimento humano antes de atingirmos a fase final, do comunismo. Esse reconhecimento da natureza histórica dos problemas econômicos é um importante contraste com a escola neoclássica, que considera o problema 'econômico' da maximização da utilidade como um problema universal — para Robinson Crusoé numa ilha deserta, para os participantes de uma feira semanal na Europa medieval, para os agricultores desubsistência na Tanzânia, para um abastado consumidor alemão do século XXI — enfim, para qualquer um."Já a escola Neoclássica, diferente da Marxista, rejeita a teoria do valor-trabalho e as suas implicações. Pois, parte de uma lógica utilitarista para determinar as relações de produção, se distanciando da abordagem focada nas relações socias da ótica Marxista e da visão classista da escola Clássica, se concentrando mais nos indivíduos (CHANG, 2014):
"A escola [Neoclássica] conceituava a economia como um conjunto de indivíduos racionais e egoístas, e não como um conjunto de classes distintas, como dizia a escola clássica. O indivíduo, conforme visto pela economia neoclássica, é um ser unidimensional — uma “máquina de prazer”, como era chamado, dedicado à maximização do prazer (utilidade) e à minimização do sofrimento (desutilidade), em geral em termos materiais definidos estritamente."
Enfim, o embate sobre a origem do valor das coisas é atual e abrangente em teoria econômica. A riqueza de categorias criadas pela teoria Marxista e sua importância na análise do Capitalismo, principalmente aquele do século XIX é inegável. Todavia, a teoria utilitarista do valor da escola neoclássica é predominante atualmente. Ela é utilizada para explicar desde a volatilidade e aparente falta de valor intríseco no Bitcoin, até as bolhas especulativas do mercado financeiro.

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