Chutando a escada: Uma história econômica não convencional
Resenha crítica do capítulo 3 de Economia modo de usar: Discussão sobre a importância do estudo da história econômica
Em Chutando a escada, Ha-Joon Chang desmente, com auxílio da história econômica, alguns dos mitos econômicos propagados pelo senso comum (CHANG, 2003). Assim, ele justifica a necessidade desta disciplina como mediadora da validade das proposições das diferentes teorias econômicas (CHANG, 2014):
"A história também nos obriga a questionar alguns pressupostos que tomamos como certos. Uma vez que você fica sabendo que muitas coisas que não podem ser compradas e vendidas hoje — como seres humanos (escravos), trabalho infantil, cargos no governo — costumavam ser perfeitamente vendáveis, você para de pensar que os limites do “livre mercado” são traçados por alguma lei eterna de ciência, e começa a ver que eles podem ser redesenhados. Quando você aprende que as economias capitalistas avançadas cresceram ao ritmo historicamente mais rápido entre as décadas de 1950 e 1970, quando havia muita regulamentação e impostos elevados, logo você desacredita na opinião
de que para promover o crescimento é preciso fazer cortes nos impostos e na burocracia."
Podemos fazer um paralelo com algumas das críticas presentes em O capital no século XXI, livro do economista francês Thomas Piketty. Este também questiona alguns mitos econômicos utilizando dados estatísticos e evidências históricas para se contrapor às mais diversas teorias econômicas.
Piketty começa o livro questionando a explicação convencional atribuída à “Curva de Kusnetz” (PIKETTY, 2014): Simon Kuznets, economista Ucraniâno, elaborou uma curva em forma de sino como explicação gráfica da ascenção da desigualdade de renda no Capitalismo e sua subsequente reversão.
Kuznets argumenta que o crescimento da desigualdade é temporário, e apenas um reflexo dos primeiros ciclos de desenvolvimento econômico. Esta tendência reverte a partir de certo nível de renda per capita e as próprias forças de mercado corroboram para a redução da desigualdade.
Todavia, Pikketty argumenta que a diminuição na desigualdade de renda observada em meados do século XX é contingente, atribuida às duas guerras mundiais, e não necessariamente faça parte de um fenômeno próprio do Capitalismo. Em resumo, há uma explicação histórica para a hipótese de Kuznets, e esta se contrapõe a uma interpretação liberal do fenômeno, do Capitalismo como redutor das desigualdades no longo prazo, o que poderia ser utilizado para justificar políticas do tipo laissez-faire.
Pelo contrário, o crescimento da desigualdade na renda é uma lei do Capitalismo. Isto implica que o Estado precisa assumir o papel de corretor destas distorções. Juntos, Ha-Joon Chang e Thomas Piketty põe em cheque aquilo que achávamos que sabíamos sobre Capitalismo e sobre a Economia.
A importância destes estudos é justificada da seguinte maneira (CHANG, 2014):
"A história afeta o presente — e não só porque é aquilo que veio antes do
presente, mas também porque ela (ou melhor, o que pensamos que sabemos sobre ela) determina nossas decisões."
As opiniões que emitimos sobre economia e política são profundamente influenciadas pelo contexto histórico que estamos inseridos. Se é assim com as pessoas comuns, é bem provável que também o seja com os políticos. Todavia, o peso das decisões políticas é consideravelmente maior e afeta a vida de muito mais pessoas. Ou seja, a importância do estudo da história econômica se dá de um ponto de vista cético, de prudência política, para que não sejamos levados a repetir os mesmos erros do passado em nome da defesa de ideologias.
Atualmente, podemos citar como exemplo de uma ideologia bastante difundida nas mídias sociais e propagada pelo senso comum, a crença no estado mínimo como promotor do desenvolvimento econômico.
Mas será que o estado mínimo é necessariamente a única forma de organização econômica para promover o crescimento? Uma análise mais aprofundada sobre os 30 Gloriosos, período que vai desde o Pós-guerra (1945) até a Estagflação (1975) põe em cheque a lógica das políticas econômicas neoliberais: Os “trinta gloriosos” são um período de intensa intervenção estatal na economia, de alta taxação sobre a renda e com amplo crescimento econômico dos países desenvolvidos.
De novo, um impasse de teoria econômica entre neoliberais e interveniconistas é combatido através de evidências históricas. Estas políticas, ditas neoliberais, voltaram a moda a partir dos governos Ronald Reaagan e Margaret Tatcher¹ como solução para o período pós 1975.
Neste período as taxas de crescimento econômico começaram a diminuir e uma série de medidas desmontaram o Estado de bem estar social constituído nos trinta anos anteriores sob a justificativa de “liberar as amarras” do livre mercado.
Todavia, os resultados econômicos obtidos contradizem as promessas. No Reino Unido, as reformas acabaram em uma crise de desemprego (CHANG, 2014):
"O desemprego subiu para 3,3 milhões de pessoas — e isso sob um governo que chegou ao poder criticando o histórico do governo trabalhista de JamesCallaghan no quesito desemprego, que passou da marca de 1 milhão, com o famoso slogan O trabalhismo não está funcionando, inventado pela agência de publicidade Saatchi & Saatchi. Durante a recessão, um enorme setor da indústria britânica, que já vinha sofrendo com o declínio da competitividade, foi destruído. Muitos centros industriais tradicionais (como Manchester, Liverpool e Sheffield) e áreas de mineração (norte da Inglaterra e do País de Gales) foram devastados, tal como retratado em filmes como Brassed Off (sobre osmineiros de carvão em Grimley, uma versão mal disfarçada da cidade carvoeira de
Grimethorpe, em Yorkshire)."
Nos Estados Unidos o resultado não foi diferente (CHANG, 2014):
"Como no Reino Unido, as taxas de juros foram elevadas, na tentativa de reduzir a inflação. Entre 1979 e 1981 o juro mais do que dobrou, passando de cerca de 10% para mais de 20% ao ano. Uma parcela significativa da indústria manufatureira dos Estados Unidos, que já vinha perdendo terreno para a concorrência do Japão e de outros países, não conseguiu suportar esse aumento dos custos financeiros. O tradicional coração industrial dos Estados Unidos, no Centro-Oeste do país, se transformou no “Cinturão da Ferrugem”.
Ao que parece, os sitemas econômicos e as políticas públicas que funcionam melhor seguem o conselho de Apolo, o caminho do meio² : Os sistemas econômicos de economia/mista mesclam a capacidade de produção de riqueza do modo de produção Capitalista com o intervencionismo estatal.
A crítica se torna ainda mais ácida quando comparamos o senso comum com a evidência histórica sobre o desenvolvimento econômico em Cingapura, uma mescla de políticas públicas “socialistas” e “liberais” (CHANG, 2014):
"Não há nenhuma teoria econômica — seja neoclássica, marxista, keynesiana, ou o que for — capaz de explicar o sucesso dessa combinação de livre mercado e socialismo. Exemplos como esse devem tornar o leitor mais cético sobre o poder das teorias econômicas e mais cauteloso em tirar conclusões de medidas práticas a partir delas."
Enfim, é inegável a capacidade do sistema capitalista em produzir riqueza. O aumento de produtividade, a redução de custos através da divisão do trabalho e a escalabilidade já são reconhecidos desde os escritos de Adam Smith. Todavia, também é inegável que o Capitalismo possui como efeito colateral o aumento da desigualdade de renda e depende de certa dose de intervencionismo estatal para corrigir as distorções do mercado. Por último, existe um dever moral no estudo da história econômica quando se trata de propor políticas públicas.
O economista deve possuir a capacidade de extrair da história as lições sobre as mais diversas teorias econômicas quando aplicadas na prática, para não correr o risco de repetir os mesmos erros ao se prender a ideologias e ignorar as evidências históricas (CHANG, 2014):
"Estudar a história não nos fará evitar por completo os erros no presente;
mas devemos nos esforçar ao máximo para extrair lições da história antes de formular uma política que afetará a vida das pessoas"
- Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989; e Margaret Tatcher, Primeira-Ministra do Reino Unido de 1979 a 1990; São comumente associados como exemplos da eficácia das políticas econômicas de austeridade em períodos de crise. Porém, isto está longe de ser verdade a luz das evidências históricas.
- Apolo realiza o desejo do filho, Faetonte. Este lhe pede para dirigir a
carruagem do pai, responsável por atravessar o Céu, trazendo o Sol,
durante o dia. Ao que Apolo aconselha: -Segue o caminho do meio. Não
suba demais a ponto de incendiar as moradas celestes, e nem desça demais
a ponto de por fogo a Terra.

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