O quebra-cabeças de um bilhão de peças
Resenha crítica do capítulo 2 de Economia modo de usar: Hayek e a teoria do mercado como ordem espontânea
No livro Menos estado e Mais Liberdade, Donald Bourdreaux descreve que em meados do século XX, o economista Friedrich Hayek já se maravilhava com a lógica do sistema de preços do modo de produção Capitalista. Para esta descrição ele utiliza a analogia de um quebra-cabeça muito complexo com um bilhão de peças: A complexidade do “quebra-cabeça” e seu elevado número de peças explicaria, por exemplo, a ineficiência do planejamento central soviético em regular a economia e a inevitabilidade do colapso do sistema socialista da URSS.
Pois, seria necessário que o planejamento central pudesse “saber“ a todo momento as preferências de cada indivíduo, de modo a garantir a melhor alocação possível de recursos (Isto equivale a um quebra-cabeça complexo e com muitas variáveis); o que em teoria o sistema de preços já faz de maneira automática e eficiente em uma nação “economicamente livre”. O livre mercado, através do sistema de preços, redireciona os fluxos de capitais e trabalhadores para onde os preços dos salários e produtos são maiores. Em resumo, o capital é dirigido para produtos e postos de trabalho onde há maior demanda da sociedade (BOURDREAUX, 2018).
A lógica desta interpretação liberal da economia, onde forças econômicas organizam a coperação de milhões de indivíduos automaticamente, mesmo que na realidade estes busquem a satisfação de seus próprios interesses, não é uma exclusividade do pensamento Hayekiano. Dois séculos antes, o filósofo e economista Adam Smith já vislumbrava a possibiidade da organização das forças produtivas de modo a garantir preços e custos os mais baixos possíveis em economias de concorrência perfeita (CHANG, 2014):
"Adam Smith acreditava que a concorrência entre vendedores no mercado garante que os produtores, visando ao lucro, produzam ao custo mais baixo possível, beneficiando assim a todos."
Smith, no seu livro A riqueza das nações: Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações, analisa a complexidade da economia capitalista, à luz de um produto simples. Muitos de nós nem desconfiamos da complexidade inerente a produção deste produto, o alfinete (CHANG, 2014):
"Smith discute como dez pessoas que dividem o processo de produção de um alfinete entre si e se especializam em um ou dois desses subprocessos podem produzir diariamente 48 mil alfinetes (ou 4800 alfinetes por pessoa). Compare isso, observa Smith, com o máximo de vinte alfinetes que cada uma delas consegue produzir por dia se cada operário realizar todo o processo sozinho."
O ponto central da análise de Smith é em como o aumento da produtividade é obtido por meio da divisão do trabalho. Uma atividade complexa como a produção de alfinetes é dividida em partes menores que são atribuídas a alguns poucos trabalhadores especialistas. Estes trabalhadores melhoram a sua capacidade produtiva, através da prática e do foco em uma única atividade repetitiva (CHANG, 2014):
"Em primeiro lugar, ao repetirem as mesmas uma ou duas tarefas, os trabalhadores melhoram mais rapidamente sua perícia (“A prática leva à perfeição”). Em segundo lugar, ao se especializar, o trabalhador não precisa perder tempo se movimentando — física e mentalmente — entre diferentes tarefas (reduzindo os “custos de transição”). E ainda, não menos importante, uma subdivisão mais detalhada do processo torna cada passo mais fácil de ser automatizado e, assim, ser realizado a uma velocidade sobre-humana (mecanização)."
Apesar do deslumbre inicial em como o modo de produção Capitalista consegue aumentar de maneina exponencial a produtividade do ser humano, e organizar a cooperação de milhões de indivíduos a partir da concorrência e do livre mercado, convém pontuar algumas conclusões não tão animadoras derivadas das proposições de Smith.
A perspectiva Marxista (já em meados do século XIX) irá focar nas consequências deste processo, algumas destas nocivas à classe trabalhadora: A divisão do trabalho, apesar de benéfica à produtividade, produz a Alienação. Preso à uma única especialidade, o trabalhador se distancia daquilo que produz. Este permanece confinado a uma única tarefa repetitiva, recebendo salários cada vez menores, até ser subistituído por uma máquina que faça o dobro do trabalho na metade do tempo. Enquanto isso, o Capitalista aumenta suas margens de lucro através da exploração do trabalho assalariado.
Se o sistema funciona com base na força de trabalho assalariada e na propriedade privada, isto implica também na necessidade da diferenciação entre os que possuem os bens de capital e os que não possuem. De modo que os trabalhadores despossuídos sejam levados a vender a sua força de trabalho em troca de salário, dado pelos donos dos Meios de Produção.
Atualmente, o modo de produção Capitalista é bastante diferente do que era na época de Marx e de Smith. É até mesmo diferente do que era no século XX, época dos escritos de Hayek. Embora este ainda mantenha a lógica da exploração do trabalho e da desigualdade críticada por Marx, é inegável que até mesmo a classe trabalhadora se beneficiou do intenso aumento da produtividade observado por Smith, muito além dos alfinetes (CHANG, 2014):
"O aumento da produtividade na fabricação de um mesmo produto, como o alfinete, é apenas uma parte da história. Hoje, nós produzimos tantas coisas que no tempo de Adam Smith só podiam existir em sonhos, como a máquinade voar, ou o que as pessoas não poderiam nem mesmo imaginar, como o microchip, o computador, o cabo de fibra óptica e inúmeras outras tecnologias de que nós precisamos até para inserir nossa senha numérica."
No contexto deste modo de produção que se modifica radicalmente a cada século, surge a indagação: Como Marx e Smith veriam a lógica fetichista do atual sistema Capitalista? Com o seu mercado de derivativos, ações e demais produtos financeiros que agora ditam a acumulação de capital? Será que estes economistas se maravilhariam com o caráter quase alquímico dos Bitcoins e criptomoedas tanto quanto na análise dos mecanismos de produção de objetos tão simplórios como os alfinetes?

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