Escatologia X Ingenuidade: Há mais de uma maneira de "fazer" economia
Resenha crítica do capítulo 4 de Economia modo de usar: Reflexões sobre "o fim da história" na economia
As teorias econômicas, às vezes, dão a impressão de se alternarem entre previsões apocalípticas e previsões extremamente otimistas a respeito da racionalidade humana. Talvez, porque no princípio, a ciência econômica, ao rivalizar com a objetividade das ciências naturais, ainda não fosse tão cética a respeito do seu poder de previsão quanto hoje, e ignorasse o efeito do contexto histórico nas suas proposições. Isto fez a Economia alternar entre um pessimismo quase romântico em relação ao futuro do Capitalismo, e um otimismo execessivamente racionalista, por vezes conservador.
Um forte exemplo deste pessimismo econômico teórico, são as previsões escatológicas surgidas naturalmente como consequência das proposições da escola clássica de economia. Uma destas proposições surge da análise Malthusiana do crescimento populacional, não há como negar a influência e o medo provocado pela Revolução Francesa nas suas análises (PIKETTY, 2014):
"Malthus estava muito preocupado com as notícias políticas vindas da França e, para evitar que o torvelinho vitimasse o Reino Unido, argumentou que todas as medidas de assistência aos pobres deveriam ser suspensas de imediato e que a taxa de natalidade deveria ser severamente controlada, com a finalidade de afastar o risco de uma catástrofe global, associada à superpopulação, ao caos e a miséria."David Ricardodo, em 1817, nos seus Princípios de economia política e tributação
foi ainda mais longe na sua escatologia. Porém, este propõe uma explicação econômica para a teoria, baseada no princípio da Escassez. O autor parte de uma análise direta das relações de oferta e demanda aplicadas a bens cada vez mais escassos (PIKETTY, 2014):
"Estava, acima de tudo, interessado no seguinte paradoxo lógico: Se o crescimento da população e da produção se prolonga, a terra tende a se tornar mais escassa em relação a outros bens. De acordo com a Lei da oferta e da demanda, o preço do bem escasso - a terra - deveria subir de modo contínuo, bem como os aluguéis pagos aos proprietários. No limite, o donos da terra receberiam uma parte cada vez mais significativa da renda nacional, e o restante da população, uma parte cada vez mais reduzida, destruindo o equilíbrio social."É interessante pontuar como estas previsões catastróficas sobre o futuro do Capitalismo contrastam com outras proposições da mesma escola econômica. Como exemplo,a definição da Lei de Say: A oferta cria a sua própria demanda. Se levada ao extremo, esta lei produz a crença quase ingênua de que o mercado é incapaz de produzir uma recessão por falta de demanda.
Ou seja, recessões que poderiam ser atenuadas através da interveção estatal são prolongadas. Podemos citar ainda a proposição resumida na metáfora da mão invisível do mercado: Paradoxalmente, apesar dos agentes econômicos estarem buscando a satisfação de seus próprios interesses por meio da concorrência e do livre mercado, estes acabam por maximizar a produção nacional produzindo ao menor custo entre si.
Porém, também levada literalmente, esta premissa produz uma fé infindável na economia de mercado, justificando assim qualquer política extremada de laissez-faire. Ao que uma análise mais apurada da história econômica nos tornaria bastante céticos a respeito (CHANG, 2003):
"Depois da Segunda Guerra Mundial, quando sua supremacia industrial ficou absolutamente patente, os Estados Unidos fizeram exatamente a mesma coisa que a Grã-Bretanha do século XIX, preconisando o livre comércio, muito embora tivessem obtido essa supremacia mediante o uso nacionalista e de um vigorroso protecionismo."
Assim como a escola clássica, a escola Marxista também estabeleceu o seu ruidoso “fim do Capitalismo”. Karl Marx, seu principal teórico, foi bastante influenciado pela filosofia Hegeliana na construção do seu “fim da história”. Marx estabelece uma base material aos conceitos extraídos da interpretação de Hegel sobre a evolução da história.
Ao invés do espírito absoluto tentando se auto conhecer, o motor dialético da história é a luta de classes: Os Interesses de indivíduos de diferentes classes sociais, estabelecidas a partir do sistema econômico utilizado por estes indivíduos para contruir os bens necessários a sua sobrevivência, se confrontam. A luta entre exploradores e explorados termina por derrubar este modo de produção vigente e substituí-lo por um novo, com uma nova classe dominante.
O fim do modo de produção Capitalista, na visão Marxista, aconteceria a partir da tomada dos meios de produção por parte dos proletários e sua subsequente ascenção como classe dominante. No entanto, as previsões da escola Marxista não se concretizaram (PIKETTY, 2014):
"A profecia sombria de Marx não chegou mais perto de se concretizar do que a de Ricardo. A partir do último terço do século XIX, os salários enfim começaram a aumentar: a melhora do poder de compra dos trbalhadores se disseminou, o que mudou radicalmente a situação, ainda que a desigualdade extrema tenha persistido e, em certos aspectos, crescido até a Primeira Guerra mundial. A revolução comunista acabou acontecendo, mas eclodiu no país mais atrasado da Europa, onde a revolução industrial mal havia começado (a Rússia)."
Recorrendo a um conhecido clichê para destacar a inconcistência teórica das previsões da teoria Marxista: Será que os políticos deturparam Marx? Se vivesse hoje, Marx seria um Marxista? (CHANG, 2014):
"A escola marxista tem muitas falhas fatais. Sobretudo sua previsão de que o capitalismo desabaria sob seu próprio peso não se concretizou. O capitalismo tem se mostrado muito mais capaz de reformar a si mesmo do que a escola havia previsto. Desde que o socialismo surgiu, isso ocorreu em países como Rússia e China, onde o capitalismo estava pouco desenvolvido, e não nas economias capitalistas mais avançadas, como Marx previra. Em virtude de o marxismo estar tão entrelaçado com um projeto político a longo prazo, muitos de seus seguidores tinham uma fé cega em tudo o que era dito por Marx ou, pior, no que a União Soviética dizia ser a interpretação correta das ideias de Marx. O colapso do bloco socialista revelou que a teoria marxista de como a alternativa ao capitalismo deveria ser organizada era extremamente inadequada. E a lista poderia continuar."Enfim, o intuito deste capítulo não é desacreditar a importância das escolas Clássica e Marxista, e tampouco das suas contribuições teóricas para a Economia. Mas sim tornar o leitor mais cético a respeito do poder de previsão de uma teoria econômica, e da necessidade de separar a análise teórica da ideologia política, e reconhecer a influência do contexto histórico na formação do pensamento dos economistas.
Marx, Ricardo, Malthus e Smith não poderiam prever as mudanças tecnológicas pelas quais o capitalismo iria passar, e como estas mudanças iriam transformar radicalmente este modo de produção. Todavia, as suas contribuições ainda são relevantes para a análise do sistema, exemplo: Marx forneceu uma riqueza de conceitos que são extremamente descritivos do capitalismo, bem como previu a financeirização do sistema Capitalista. O princípio da Escassez de Ricardo ainda é utilizado para descrever o comportamento dos preços de bens escassos.
Assim, fica delineado ao leitor que existe mais de um jeito de “fazer” Economia. E as diferentes perspectivas, por vezes conflitantes, contribuem para uma análise mais apurada dos fenômenos.

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