O caminho da servidão não é tão ruim

Resenha crítica do capítulo 6 de Economia modo de usar: O debate econômico entre Keynes e Hayek

 

O contexto histórico exerce bastante influência nas teorias econômicas. Com os teóricos da escola austríaca não foi diferente. Hayek, um dos principais teóricos desta escola, cunhou o termo Caminho da Servidão para descrever como a restrição da liberdade econômica afeta também as liberdades individuais, dentre elas principalmente a liberdade política (BOURDREAUX, 2018):
"Independente do método empregado, um governo que estiver determinado a proteger as pessoas de qualquer desvantagem de uma mudança econômica, exigirá poderes praticamente ilimitados de regulação e tributação."
É óbvio que a interpretação Hayekiana foi bastante influênciada pelo contexto histórico da Guerra Fria. E que a metáfora do Caminho da servidão explica de maneira razoável os resultados obtidos pelos regimes Fascistas e Socialistas em meados do século XX, que rivalizavam com a democracia liberal à época, representada pelos aliados e pelos Estados Unidos do pós-guerra. Todavia, a generalização deste conceito pode levar à defesa puramente ideológica do capitalismo laissez-faire.
 
Esta defesa contrasta com a observação histórica: Afinal, alguns países com estados considerados “grandes”, intervencionistas e protecionistas tiveram taxas consideráveis de crescimento econômico, a China é um bom exemplo disto. O caminho da servidão, apesar de verdadeiro, possui limites muito tênues (BOURDREAUX, 2018):
"Infelizmente, pelo fato de o crescimento econômico ser uma mudança econômica que exige a árdua transferência de recursos e trabalhadores de antigas indústrias que deixaram de ser lucrativas para novas indústrias, quando se evita qualquer tipo de queda na renda, acaba-se impedindo que haja crescimento econômico. A economia se torna ossificada, estática e moribunda. Portanto, proteger o tempo todo os cidadãos contra o risco de diminuição de sua renda significa apenas ser comandado por um imenso e poderoso governo, praticamente sem limites à sua discricionariedade, mas também erradicar todas as perspectivas de crescimento econômico. De modo inevitável, no fim deste caminho, criado com a intenção de proteger todos os produtores contra perdas, não se encontra apenas servidão, mas também uma pobreza sem fim. Há clara contradição na descrição do Caminho da servidão acima em comparação com a lógica da escola desenvolvimentista e da escola Keynesiana, ambas destacam o papel do Estado no desenvolvimento econômico e na solução de crises financeiras."
 
Enfim, notamos que Hayek estava errado em interpretar qualquer intervenção estatal como necessariamente maléfica à economia e a nação. Pelo contrário, a luz da história, os países que se desenvolveram tiveram uma boa dose de  intervencionismo, só que diferente dos países de inclinação Fascista e Socialista, estas nações não tenderam para a escatologia Hayekiana do Caminho da Servidão.
 
A saída para este aparente paradoxo é dada pela escola institucionalista, os países que se desenvolveram, e não trilharam o caminho funesto dos regimes totalitários, se apoiaram sobre instituições fortes que exerceram um papel determinante no seu desenvolvimento econômico. Isto obviamente contradiz a interpretação da escola austríaca (CHANG, 2014):
"O momento mais brilhante da escola [Institucionalista] foi o New Deal, de cujo projeto e execução participaram muitos de seus membros. Hoje o New Deal é muitas vezes considerado como um programa de políticas keynesianas. Mas, refletindo bem, Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, a obra máxima de Keynes, só saiu em 1936, um ano após o segundo New Deal, de 1935 (o primeiro foi em 1933). O New Deal tratava muito mais das instituições — a regulação financeira, a segurança social, os sindicatos, a regulação dos serviços públicos — do que de política macroeconômica, [...] Economistas institucionais como Arthur Burns (presidente do Conselho de Assessores Econômicos para o presidente dos Estados Unidos, 1953-6; e presidente do Federal Reserve Board, 1970-8) tiveram papéis importantes na elaboração da política econômica dos Estados Unidos, mesmo após a Segunda Guerra Mundial."

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