A fantástica fábrica de economistas

Resenha crítica do capítulo 1 de Economia modo de usar: Uma discussão sobre o objeto de estudo da economia

 


Na versão de 2005 do filme A fantástica fábrica de chocolate, o Sr. Bucket, pai de Charlie, perde o emprego de apertador de tampinhas de tubos de pastas de dentes, pois alguém inventou uma máquina capaz de fazer o mesmo trabalho cem vezes mais rápido (CHANG, 2014). Certamente alguém, se valendo do economês, apontaria neste caso os conceitos de alienação, da exploração do capital sobre o homem e da lógica perversa do Capitalismo.


Outro talvez apontasse que no longo prazo a sociedade se beneficiaria como um todo com o aumento de produtividade, com mais opções de produtos a preços mais baratos. Todavia, ambos concordariam que este problema se trata de um problema econômico.


Mas afinal, porque este seria um problema econômico? O que define um problema como econômico? Este é um tema central da introdução a teorial econômica, e pode ser resumido em uma única questão: Qual o objeto de estudo da Economia?


Por um lado, a Economia parece, a alguns economistas, ter a pretensão megalomaníaca de explicar “tudo”. Principalmente a partir de abordagens generalistas, como a do livro Freakonomics, onde as análises econômicas são feitas sobre temas não comumente associados à Economia, como por exemplo, as lutas de sumô
(DUBNER; LEVITT, 2005).


Estas abordagens derivam da definição proposta pela escola neoclássica: 

A economia é o estudo da escolha racional visando objetivos que podem ser atingidos a partir de meios inevitavelmente escassos (CHANG, 2014).

Em resumo, o agente econômico toma a decisão que maximiza o seu bem estar. Assim, a economia seria o estudo da escolha racional deste agente, mediante a escassez, visando o seu bem estar. Todavia, o objeto desta escolha poderia ser literalmente qualquer coisa, daí a confusão em delimitar um objeto de estudo para a Economia.


Este ponto de vista, por sua vez, contrasta com a abordagem da economia comportamental: Esta demonstra que os agentes econômicos aparentemente não são tão racionais como pensava a escola neoclássica. Muitas de nossas escolhas, ditas racionais e livres, na realidade estão cheias de viéses e heurísticas, e constrastam com o ideal esperado de uma escolha puramente racional (KAHNEMAN, 2011).


Neste ínterim, por não definir claramente o seu objeto de estudo, se ver refém de perspectivas muitas vezes conflitantes, e ter a pretensão de abarcar a totalidade dos
problemas humanos, a Economia parece se afastar do caráter especialista das ciências naturais, como a física.

As diferenças em relação às ciências natuarais são ainda mais acentuadas quando comparamos o poder de previsão dos economistas com o de físicos e químicos, por exemplo. Chegando ao ponto do economista John Kenneth Galbraith afirmar de maneira hiperbólica:

“a única função das previsões econômicas é tornar a astrologia respeitável” (CHANG, 2014).

Enfim, este é um debate bastante complexo e de certa maneira infrutífero. Pois, ao tentar delimitar com exatidão e rigidez o campo de estudo da ciência econômica se perde a capacidade de utilização das ferramentas econômicas para os mais variados problemas.
A importância da Economia está no diálogo com as outras ciências, e na capacidade de oferecer soluções para problemas, alguns não usuais da ciência econômica.


Uma maneira eficaz de propor uma solução para este aparente impasse, sem apelar à abordagem generalista, é definir os estudos econômicos em termos dos seus assuntos principais, cada um com a sua ênfase, pontos de crítica e perspectiva, sem a pretensão de abarcar “tudo” (CHANG, 2014):

"O tema dos estudos econômicos deveria ser a economia — a qual envolve dinheiro, trabalho, tecnologia, comércio internacional, impostos e outras coisas relativas às formas como produzimos bens e serviços, distribuímos os rendimentos gerados nesse processo e consumimos as coisas assim produzidas — em vez de “a vida, o universo e tudo mais” (ou “quase tudo”), como pensam muitos economistas."

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