A minha cápsula do tempo: Uma pérola encontrada em meio aos textos mofados da juventude
— Leitor amigo, hoje eu tive uma bela surpresa! — Revirando os textos do blog Café e Rodoxina para utilizar na série A minha cápsula do tempo, eis que eu encontro uma pepita de ouro em meio aos escritos bagunçados da minha juventude. O mais impressionante, meus caros, é que este texto exemplifica bem o propósito da criação de uma cápsula do tempo:
empacotar o presente intencionalmente para o futuro, de modo que eu possa revisitá-lo sempre que eu quiser — e precisar
O texto original é intitulado No ônibus. E conta, de maneira surpreendentemente bem humorada, um assalto que ocorreu no ônibus, quando eu voltava para casa naquele dia. Um dia que poderia ser comum e ordinário se tornou um momento memorável e digno de nota. E, com o auxílio da minha cápsula do tempo, eu pude reviver aquele momento em detalhes e dar algumas boas risadas.
No ônibus
Modificado a partir do texto original do blog Café e Rodoxina, publicado em 16 de novembro de 2009.
Parece engraçado oque eu vou dizer, no entanto, não existe nada mais reflexivo do que o cotidiano, do que este proceso monótono que chamamos de dia-a-dia, quando este se altera de maneira inesperada. Daí surgem as reflexões mais profundas, subjugando a banalidade impregnada nas nossas relações cotidianas. Ontem, um destes incidentes incomuns perturbou a minha rotina. E por pouco não transformou a minha vida para sempre...
Eu voltava de uma feira cultural com um colega da escola e, depois
de horas na parada, nós apanhamos um ônibus lotado. Felizmente , nós
conseguimos subir e passar a roleta antes que os outros passageiros
trogloditas o fizessem. Mas, ainda assim, nós ficamos estagnados no meio do veículo. E mesmo com muito esforço, nós não andamos nem mais um
passo.
Foi então, que eu senti de leve uma mão revirando o meu bolso direito. O polegar
opositor e seus companheiros, os nossos dedinhos, pertenciam a um garoto que aparentava ter a minha idade. Ele vestia uma camisa falsificada da Nike, um
chapéu de aba reta e bermuda de time europeu comprada no camelô. — Longe da minha índole julgar alguém somente pela
aparência. Mas a mão no meu bolso não deixava dúvidas que o meu pré julgamento, pelo uniforme, estava correto.
Então, um grito
de desespero ecoou da parte da frente do ônibus: "ladrão, devolve o meu celular!",
dizia um dos vociferantes passageiros. Todavia, não era do meu ladrão que
eles falavam. Este, por sinal, havia retirado a mão leve do meu bolso. Era um outro
ladrão.
Os passageiros urravam: "espanca, vamos espancar ele!", foi a
maior confusão. Enquanto isso o bandido tentava se teletransportar pela porta da frente do veículo e era segurado, pela camisa, por meia dúzia de passageiros raivosos. E eu calado, só pensando na minha sorte, — Dois no mesmo
ônibus, — E o irônico é que o gatuno, que estava prestes a me roubar há alguns minutos
atrás, se juntou ao coro dos passageiros com um comovente "lugar de bandido é na cadeia". Eu só não desatei a rir, caro leitor, porque o meu sarcasmo não é tão forte quanto o meu medo.
Enfim,
nós paramos na delegacia mais próxima e o bandido do celular foi preso. No
entanto, o meu "amigo do chapéu de aba reta" foi sorrindo para sua casa. Provavelmente, agradecendo
por não ter lhe sucedido o mesmo que o outro ladrão desafortunado. Eu, porém, me senti o mais feliz de
todos os passageiros. Feliz por um dia incomum em um ônibus lotado e um divertido
passeio em "ótima" companhia. Porém, ainda me entristece saber que
estes dias estão se tornando cada vez mais repetitivos e rotineiros,
o incomum agora é ir tranquilo para casa.

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