Piatã e as palavras bonitas dos homens brancos
— Veja, meu caro leitor. — Tudo oque se perde em não observar a beleza desta floresta pela manhã: O som e o silêncio contrastando a cada pisada em um monte de folhas secas, no abrir da picada por entre a mata húmida de orvalho e no roçar do terçado por entre os galhos secos das árvores velhas.
— Será esta a sina do caçador? — Andar na mata ainda escura, com apenas alguns frágeis resquícios de sol, o arco e a flecha empunhados e a concentração extrema que resulta no disparo, um animal feroz cai morto, a destreza e a força bruta contrastando em um ambiente selvagem.
Então, a pobre fera recebe o golpe de misericórdia, e as partes são repartidas entre os companheiros. Basta voltar para a aldeia, e deixar que o cheiro de sangue fresco sucumba por entre as trilhas abertas, para no final saciar a fome dos irmãos de sangue e de suor.
Todavia, nem sempre um pai abençoa seus filhos. Às vezes, Nhanderuvuçu adquire um tom escarninho, típico dos deuses. Eis que o mau agouro vem sobre a forma de tupã, sinalizando que a chuva vem atrapalhar a caçada e o "rasga mortalha" completa a fala.
A velha Iraní dizia que quando o pássaro Acauã, o "rasga mortalha", lançava na floresta o seu canto de mau agouro, era sinal de caçada ruim, de desgraça. E a preta Chica confirmava tudo com as histórias do quilombo por onde passou e viveu seus anos de menina. Anos que durariam muito, se o tempo não tivesse marcado de ínfimas, porém visíveis rugas, a face da preta velha.
E Piatã escutava as falas das duas velhas, calado, era o único que não ía embora assim que passava a chuva da tarde. Ele via todos os piás correrem para tomar banho no rio, mas ficava alí parado. E quando as velhas terminavam o falatório e a mandioca estava praticamente pronta para a confecção do beiju, Piatã implorava: "conta aquela dos homens brancos, mana Chica?".
E a Chica sempre contava. Não sem antes algumas palavras fingidas de protesto: "de novo piá? de novo!".
"Dizem os mais velhos que muito além do rio, para além do charco grande, lá onde a boiúna não chega, onde terminam os sinais da mata virgem, lá vivem os homens brancos."
E a preta Chica continuava, após um já costumeiro ar de espanto de Piatã.
"No começo, eram apenas alguns poucos que chegaram flutuando sobre as águas, e depois nos enganaram, enganaram até a Ci, a mãe do mato. Começaram com pequenas cabanas, trocavam as coisas pelas nossas árvores. Agora possuem vasto império, movido de máquinas. É máquina para tudo. Máquina computador, máquina telefone, todas essas máquinas. Dizem alguns que eles tem até máquina amor, mas essa custa moeda... as filhas de Mani, branquinhas como farinha de mandioca, não brincam de graça não piá!"
E Piatã começava a rir das filhas de Mani. A preta continuava, e ria junto com o piá.
"É piá, moeda compra tudo lá. Compra cabana, compra rio para pescar, compra canoa, compra máquina carro, moeda compra tudo..."
E Piatã dava um gemido de espanto sempre que escutava esta parte da história. Como as coisas que eram de graça custavam moeda na terra dos homens brancos?
— E moeda compra alegria, mana Chica? — Piatã perguntava estupefato.
— Num compra, mas manda buscar. Quem não tem moeda lá não pode amar, nem viver, nem sonhar... É a sina da terra dos homens brancos, ter moeda. — E Chica continuava a sua história.
"Apesar disso tudo, os homens brancos ainda fazem ação pior, guerra injusta. Nessas guerras morrem muitos piás, velhos e mulheres. A pior de todas as guerras foi contra o império da Mata Virgem. Muitos guerreiros morreram. Então vieram a máquina trator, a máquina estrada, a máquina prédio, todas essas máquinas. A mata continuou selva, mas agora os homens brancos chamam de selva de pedra."
E eis que a Chica chegava na parte preferida do menino índio.
"Há muito tempo atrás, existia um gigantesco império de mulheres guerreiras, comandado pela rainha Ci, a mãe do mato. Este vasto império de mulheres guerreiras, as icamiabas, se chamava império da Mata Virgem."
"Ci era rainha guerreira. Um dia, andando pela margem do rio Amazonas, a mãe do mato encontrou um estranho pássaro que parecia flutuar sobre as águas. E do ventre deste pássaro surgiram inúmeros filhos de Mani, os homens brancos. Ci se encantou com a brancura dos visitantes. E ficou ainda mais encantada com os olhos cor de folha do rei dos homens brancos."
"Dizem os mais velhos, que quando o rei branco viu a mãe do mato foi amor puro como de piá. Ci era linda. Os olhos feitos das estrelas do Céu e o cabelo negro como a noite, a pele morena e macia banhada pelo orvalho mais puro da manhã. O rei dos homens brancos e Ci se apaixonaram."
"O rei branco prometeu para Ci um vasto império, muito além do charco grande e dos limites da Mata Virgem. Ele queria apenas que a mãe do mato fosse sua. E numa noite de céu estrelado, a mãe do mato mergulhou bem no fundo do lago Iaci-Uaruá, e do cascalho retirado de lá, trouxe pedra Muiraquitã. A noite foi de festa. As icamiabas brincaram a noite toda com os homens brancos. E a rainha Ci, a mãe do mato, se entregou para o rei dos homens brancos."
Nesta parte, Piatã escutava a história já com os olhinhos brilhando. Como se ele pudesse ver desenhadas no céu todas as cenas que se denserrolavam nas falas da Chica.
"Eles brincaram a noite toda. Noite mais linda de todas. O rei dos homens brancos mostrou seu maior tesouro para Ci, a sua coroa. Ele disse que onde está o tesouro do homem, lá está o seu coração. Mas tesouro mais valioso era Ci."
"E Ci mostrou seu maior tesouro, a pedra Muiraquitã, retirada do lago Iaci-Uaruá. É como se a pedra fosse floresta. Dentro da pedra Muiraquitã o lindo e o belo se intercalam, o Uirapuru canta e as outras aves se calam. Mas o tesouro mais valioso para Ci era rei branco."
"No outro dia, o rei da tribo dos Guacaris chegou para a festa da lua cheia. Mas, as Icamiabas já tinham brincado a noite toda com os homens brancos. Quando o rei dos Guracaris viu a pedra Muiraquitã no pescoço do rei dos homens brancos morreu de ciúme, declarou guerra."
— E oque aconteceu depois mana Chica? — Piatã perguntava como se já não soubesse.
"Depois guerra aconteceu. Muitos morreram. Mas os homens brancos eram espertos. O rei dos homens brancos decidiu fazer um trato com os Guacaris. O rei dos Guacaris aceitou, muitos Guacaris morreram na guerra. E eles dividiram o império da Mata Virgem.
"Ci ficou muito triste. Mais importante para o rei dos homens brancos era a terra e poder do que Ci. Alguns anos depois, mais homens brancos foram aparecendo do ventre de seus pássaros que flutuavam nas águas. Aos poucos derrotaram a tribo dos Guacaris."
Nessa parte da história o piá sempre dava um suspiro de tristeza.
"Ci triste ficou. Chorou, chorou muito, pobre índia. Ela tão triste ficou que se jogou nas águas do lago Iací-Uaruá para nunca mais ser vista. Outros dizem que a mãe do mato foi fazer companhia para as estrelas do céu."
E como de costume, Iaçá chegou, interrompendo o final da história. A cunhã parou para falar com Iraní, que ralava mandioca, enquanto a preta Chica contava suas velhas histórias para Piatã.
Mas, Irani era índia velha. Logo percebeu os olhos de Piatã para com Iaçá. A velha Iraní desconfiava que o piá estivesse apaixonado pela menina índia de olhos e cabelos negros da cor do suco da jussara. Porém, não era amor não, era querer de piá. Só querer estar perto para conversar e fingir ser gente grande.
— Ô curumin, não tem nada milhó para fazer? — A velha Iraní franzia a testa.
— Minha mãe, deixa curumin comigo para ralar mandioca, deixa? — Iaçá pedia com olhos tão suplicantes, e a velha índia Iraní adorava ser chamada de mãe pela cunhã que ela cedia com prazer à essa chuva de súplicas tão meigas.
Então, a preta Chica puxou Iraní pelo braço, para que fossem cuidar de outros afazeres, deixando Piatã e Iaçá sozinhos.
— Piatã, eu te amo. — Disse Iaçá, assim que ficou sozinha com o piá. Piatã não entendeu foi nada. E logo perguntou oque ela queria dizer com aquelas palavras, pareciam tão bonitas...
— Ora, piá! — Iaçá respondeu. — Ontem eu escutei a conversa de mano Manuel com mana Irací. E ele disse que quando se quer muito alguém a gente diz isso. E mano Manuel ainda falou que vai levar Irací para conhecer a terra dos homens brancos.
O mano Manuel era o piloto do avião utilizado para entregar mantimentos e remédios na reserva indígena onde ficava a aldeia de Piatã e Iaçá. E Manuel era um moço bonito. Por isso, a velha índia Iraní não gostava dele perto das cunhãs. Principalmente, da filha dela, Irací, a amiga de Iaçá que começava a desabrochar feito botão de flor na primavera.
Então, Piatã começou a rir quando soube o significado das palavras que dizem os homens brancos, — são tão engraçadas! — Iaçá achou que o moleque estava caçoando dela e ficou vermelha, fazendo um bonito contraste com o branco da farinha de mandioca recém ralada.
Piatã percebeu o rosto corado de Iaçá e deu um abraço bem apertado nela, ao que Iaçá retribuiu com um beijo na testa do piá. E os dois desataram a rir. A velha índia Iraní voltou bem nessa hora e, como era sempre desconfiada de cunhãs e piás juntos, tratou logo de mandar um "Cada um para sua cabana!". Piatã ficou com medo da bronca da índia Iraní, a velha ralhava muito quando estava zangada.
O piá ficou a noite toda pensando nas histórias da mana Chica e nas palavras engraçadas, e ao mesmo tempo bonitas, que os homens brancos usam quando querem alguma coisa.
E lá se foram mais alguns dias de novas palavras bonitas que dizem os homens brancos... Piatã e Iaçá até imitavam mano Manuel e Irací, fazendo troça dos dois! Iaçá dizia "eu te amo, meu amor" e mexia no cabelo negro e liso imitando Irací. Ao que Piatã respondia, andando com o peito estufado, e misturava as palavras bonitas com as que ele já conhecia: "te amo mais que o rio", "te amo mais forte que ferroada de formiga de fogo", "te amo mais que o suco da jussara"...
E eram tardes e noites de "juras de amor", de risos e brincadeiras. Os dois nem sabiam direito o significado do que diziam, mas diziam e gostavam de dizer. Era divertido fingir ser gente grande e tudo terminava em riso de piá!
Um dia, Piatã vinha andando pela margem do rio próximo à aldeia e viu a velha Iraní chorando muito. A índia estava sozinha na margem e lavava a alma com um pouco da água do rio.
— O que aconteceu, mana Iraní? — Piatã perguntou já meio triste, pois as lágrimas da índia eram tantas!
— Piá. Mano Manuel... — A velha índia não tinha coragem de dizer aquilo para uma criança, mas sufocou o choro em um suspiro.
— Ele levou Irací para a terra dos homens brancos, mana Iraní? — Piatã perguntou.
— Mano Manuel levou Irací sim. — A velha índia limpava as lágrimas dos olhos com um lenço. — Os dois voaram na máquina avião até Belém. Mano João, o pescador, veio me dizer onde ela está.
— E qual o motivo de tanto choro minha mana, é saudade? — Perguntou Piatã confuso.
— Sabe, piá. Lembra da história que mana Chica contou sobre os homens brancos? — Iraní ensaiava contar a verdade para o piá, mas esbarrou no brilho dos seus olhos de menino. — O piá vai entender direito quando for mais velho...
Infelizmente, Piatã entendeu oque se passava algumas horas depois, ao escutar a conversa do pescador João com a índia Iraní. As lágrimas caíam do rosto de Iraní como as contas do colar partido que a filha Iací carregava sempre consigo.
— Pobre índia! Mano Manuel "brincou" com ela a força! — disse João, o pescador.
Piatã entendeu que mano Manuel, como beija-flor tentando extraír o mel do botão de flor que ainda não desabrochou, deixou a cunhatã Irací tão triste, tão triste, que ela foi fazer companhia para Ci, a mãe do mato. Irací se jogou nas águas do rio Iací-Uaruá!
Então, Piatã voltou para a sua cabana sem dizer nada. As tragédias fazem a meninice dos piás desaparecer rapidamente. O piá não conseguia entender, "Mano Manuel disse te amo para Irací!".
Piatã encontrou Iaçá no caminho. A cunhatã estava pronta para brincar de dizer as palavras bonitas mais uma vez, mas o piá tapou a boca dela bem depressa, com um leve toque dos seus dedos de menino. Piatã, com o olhar sereno do pássaro Acauã, o rasga mortalha, refletido em seus olhos de piá, deixou sem brilho os olhinhos pretos de Iaçá.
Depois do ocorrido, e com o tempo, Piatã e Iaçá resolveram deixar que outras coisas falassem por suas palavras. Aos poucos, eles superaram a saudade que sentiam da velha índia Iraní e da cunhã Irací, que foi fazer companhia para Ci, a mãe do Mato.
As meninices de piá voltaram e substituiram as palavras dos adultos, e os dois puderam brincar e sorrir novamente. Eles nunca mais disseram aquele "eu te amo" um para o outro. Nunca mais disseram o "eu te amo" dos homens brancos...

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