Nietzsche e a crítica à Felicidade moderna

 

Nietzsche foi um grande crítico da modernidade. O "filósofo do martelo" se apresentava como "o destruidor de ídolos" e até mesmo como "dinamite". Porém, o objetivo de sua filosofia não é destrutivo, mas sim construtivo: É somente com o abandono destes falsos ídolos que o homem poderá alcançar valores mais elevados. Dentre estes ídolos, se destaca o ideal de felicidade que anima o cenário moderno na sua visão utópica de mundo.

O que é a Felicidade para Nietzsche?

Segundo Nietzsche, para o homem moderno, utilitarista, a felicidade é um estado de torpor onde não existem mais conflitos, desejos e lutas. Já para o filósofo, a felicidade é um estado de conflito, guerra, incerteza, um estado em que o homem supera a sí mesmo e atinge um patamar mais elevado. Nietzsche se contrapõe à felicidade moderna apresentando a felicidade como manifestação da Vontade de Poder no homem. Em sua obra O Anticristo, no aforismo II:

Oque é a felicidade? - A sensação de que o poder cresce e uma resistência foi vencida. Nenhum contentamento, mas mais poder. Não a paz acima de tudo, mas a guerra [...]

Nietzsche acredita que esta "felicidade" à que aspira o ideário moderno é sintoma de decadência, de negação da vida e do cansaço. Afinal, se a vida é domínio, apropriação, conflito e luta — Em outras palavras a vida é Vontade de Poder — quem deseja um estado de ausência de tudo aquilo que caracteriza a vida, no fundo, está expressando o seu desejo de deixar de existir. Assim, oque o filósofo critica nas doutrinas do "bem-estar" é a vontade de atingir este patamar de ausência de luta, o desejo que ele compreende como niilista: Uma vontade de deixar de existir, de se unir ao nada e de nada ser. Observe o seguinte trecho retirado do aforismo 225 de Além do Bem e do Mal:

O bem-estar da forma como entendeis - não é um objetivo, antes nos parece ser um fim, um estado que logo torna o homem ridículo e desprezível - que faz desejar a sua perdição

A humanidade precisa se tornar "melhor" (não em um sentido "moral", mas "extramoral"). No sentido da superação de um estado anterior, considerado por nós como inferior, para um estado posterior considerado superior. Isto se dá através da ruptura de resistências externas contrárias a expansão do nosso poder. Esta, para Nietzsche, é a essência do homem, a manifestação da sua Vontade de Poder.

A disciplina do sofrimento, do grande sofrimento - não sabeis que foi só esta disciplina que criou, até agora, todas as sublimações do homem? Essa tensão da alma no infortúnio que lhe inculca a força, os seus estremecimentos diante do grande cataclismo, o seu engenho e a sua coragem para enfrentar, aguentar, interpretar, aproveitar a desgraça e tudo que jamais lhe foi dado de profundo [...]

Oque Nietzsche pretende colocar no lugar do ideal de Felicidade moderno?

Como Nietzsche pretende derrotar a "felicidade" moderna? Este ídolo que se impõe sobre nós e que, assim como a Hidra com suas cabeças de serpente, está sempre a postos, substituindo um desejo já satisfeito por dois outros novos. A saída para o filósofo é a destruição dos sustentáculos do ídolo, os seus "pés de barro": A compaixão pela "criatura no homem". A felicidade do moderno se sustenta na compaixão pelos que sofrem, pelos incapazes e pelos infelizes. Por isso, Nietzsche ataca a compaixão do moderno utilizando como arma a compaixão pelo que há de criador no homem. E assim destrói o ídolo a marteladas.

Percebeis que a vossa compaixão é pela "criatura no homem", pelo que deve ser formado, quebrado, forjado, rasgado, queimado, ardido, purificado - Pelo que necessariamente tem de sofrer e deve sofrer?

A "guerra" de Nietzsche contra as doutrinas filosóficas ingênuas

Por fim, o filósofo declara guerra ao hedonismo, pessimismo, utilitarismo, eudemonismo. Todas estas doutrinas filosóficas que, para Nietzsche, medem o valor das coisas pelo prazer e pelo sofrimento que causam. Em meio a sua busca pelo que há de mais elevado no homem, o filósofo termina por classificar estas doutrinas como ingenuidade.

A nossa compaixão é uma compaixão superior, de horizontes mais vastos. Nós vemos como o homem se amesquinha, como vós o amesquinhais! [...] Compaixão, portanto, contra compaixão! - Porém, digamo-lo uma vez mais, há problemas superiores a todos os problemas do prazer e sofrimento e compaixão. Sem dúvida que toda filosofia que se limita apenas a isso é uma ingenuidade.


Referências:

  • NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Alex Marins. Martin Claret, 2011. (Aforismo 225)
  • NIETZSCHE, F. O Anticristo. Tradução de Pietro Nassetti. Martin Claret, 2005. (Aforismo II)

 

 

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